As pinturas rupestres, pelo pitoresco que representam mas sobretudo pelo significado e mistérios de que estão imbuídas, são particularmente atractivas para o público em geral e para o público juvenil em particular. Por isso, seria interessante a análise das pinturas rupestres que há pou­cos anos têm vindo a ser estudadas no lugar de Pedras Negras, 11 km a NNE do cabo da Roca e junto ao Magoito. Esta localização não surpreende quem a região conheça em termos arqueológicos, já que perto se situam, por exemplo, as estações de Casal dos Pianos - ricas em vestígios roma­nos e posteriores - ou os concheiros do Magoito - datados do Paleolítico Superior ou do Mesolitico -, entre outras de que daremos atempadamen­te noticia. Toda a região circundante das grutas é assim um pólo de uma muito antiga ocupação humana e pródiga em património.
As pinturas rituais e prato-históricas de que agora daremos uma breve resenha foram descobertas em Maio de 1985, e investigadas pelo arqueólogo sintrense Elvio Melim de Sousa e pelo arquitecto e especialis­ta Mário VareI a Gomes. As pinturas estão representadas em dois blocos liticos de natureza arenosa que durante largo tempo estiveram soterra­das, o que muito contribuiu para a sua razoável conservação. No primeiro bloco temos representados:
  • Uma figura antropomórfica masculina de braços erguidos e com os genitais bem representados. Tem uma altura de 41 cm e uma largura máxima de 31 cm.
  • Um sulco curvilineo.
  • Dois círculos radiados de 26 cm de diâmetro e oito raios cada.
  • Uma cruz latina rodeada de oito pontos, medindo 22 cm por 18 cm.
  • Várias linhas e traços, ora paralelos, ora isolados.
Por seu turno, no segundo bloco podem ser observados vários sulcos verticais rematados por depressões circulares.
A interpretação destes dois blocos sugere o seguinte: a figura antro­pomórfica do primeiro bloco representaria um orante, enquanto os círcu­los simbolizariam o sol em diversas posições; por seu turno, as linhas paralelas representariam as ondas do mar, a cruz seria uma estrela, o sulco seria a linha da costa, enquanto que as linhas avulsas simboliza­riam o horizonte. O segundo bloco apresentaria o círculo astral relaciona­do com o anterior bloco, podendo ser até - muito provavelmente - um fragmento desse mesmo bloco.
Segundo os especialistas, as gravuras enquadrar-se-iam numa tradi­ção cultural regionaL que remontaria a épocas claramente pré-históricas, e que se situariam na Idade do Bronze e do Ferro - 3000 a 2500 anos -, prolongando-se até épocas tardias da ocupação romana, passando então a assumir características oficiais.
Infelizmente, o desfecho deste espólio é desanimador. Alguém, munido de picareta e pela calada da noite, destruiu com­pletamente as pedras e as respectivas gravuras. Um misto de ignorância de interesses insuspeitos estarão na origem de mais um crime de lesa­-património, entretanto sob investigação policial. A reconstituição das pedras e desenhos não se afigura fáciL já que a natureza arenosa das pedras o dificulta. Contudo, ressalve-se que se podem observar registos fotográficos importantes destas pinturas rupestres no Museu Regional de Sintra.