A área arqueologicamente conhecida por «Plataforma de Pianos» compreende uma zona limitada a norte pela ribeira da Samarra e a sul pela ribeira da Mata, estendendo-se entre ambas uma área de 4,5 km de comprimento. Tal área, ainda que não alcance no seu ponto mais alto valores superiores a 120 m, é dotada, de acordo com os especialistas, de características próprias e de uma altitude média específica, que não só a individualizam como permitem que receba o topónimo de «Plataforma de Pianos».
É esta plataforma que irá agora ser objecto da nossa atenção, já que o grande número de vestígios encontrados e a antiga ocupação humana fazem dela um ponto de interesse para a história do concelho em geral e para a ocupação romana em particular.
Nos arredores da plataforma foram encontrados alguns testemunhos do Paleolítico Médio (30 000 a 50 000 anos), sobretudo a norte, na região litoral da Assafora, e a sul perto da praia do Magoito. Também do Paleolítico Superior (9000 a.C.) foram encontrados vestígios no Magoito. Decorridos cerca de 6000 anos, encontramos vestígios de um habitat neo­calcolítico implantado na região da Pedranta. Povos já resultantes da chamada Revolução Neolítica, e portanto praticando uma economia muito mais de produção que de recolecção, servem-se sobretudo das partes mais altas da plataforma, deixando as áreas baixas - menos férteis para necrópole.
A época, porém, mais fértil em vestígios arqueológicos e que pressu­põe, portanto, uma mais intensiva ocupação humana é a da ocupação romana, que neste caso começa por meados do século I a.C. Da vasta plêiade de vestígios desta época deixados, interessam-nos mais os ar­queológicos e menos os (de acordo com Cardim Ribeiro, cujas conclusões seguimos para esta área) geográficos e os toponímicos.
Os mais importantes vestígios arqueológicos compreendem túmulos monumentais, geralmente epigrafados. Muitos foram registados e lidos (nem sempre sem mácula interpretativa) pelos interessados renascentis­tas que muito contribuíram - como a seguir veremos em Odrinhas ­para um melhor conhecimento desta zona. O mais importante está descri­to por Cardim Ribeiro num estudo que efectuou na década de 1980 no «Jornal de Sintra» (vide Bibliografia). Outros vestígios incluem cipos, como o descoberto em 1955, de secção arciforme e depositado no museu de Odrinhas, onde permanece sob o número LXXV, e cujas características monumentais o individualizam sobremaneira, não obstante alguma dete­rioração.
Estes dois vestígios permitem supor a existência de um conjunto rela­tivamente abundante de monumentos funerários reveladores do uso ritu­al de práticas crematórias.
Ainda relacionada com a prática de cremação, encontra-se a necrópo­le romana descoberta em 1978 na plataforma de Pianos, cujo espólio se encontra depositado no Museu Regional de Sintra. A necrópole era com­posta por duas sepulturas, apresentando a primeira um comprimento máximo de quase 2 m e uma largura máxima de 80 cm, tendo sido encon­tradas perto duas «ol1ae» (vasos) servindo de urnas cinerárias e três ungentários cerâmicos em forma de gota, aparentemente datados do sécu­lo I d.C. A segunda sepultura era inferior nas suas dimensões à primeira, e tinha integrada uma outra «ol1ae». Ainda associados a estas duas sepultu­ras, foram encontrados dois copos e um prato, para além de outros vestí­gios como telhas, quer «imbrices» (curvas) quer «tegulae» (planas).
Necrópoles de inumação (e não de cremação, como as anteriores) foram igualmente descobertas, nomeadamente na parcela de terra conhe­cida por «Cerrado de Torres», onde foram descobertas três sepulturas, contendo vestígios interessantes, que incluíam (para além dos respecti­vos esqueletos, claro) moedas do século III d.C., e um anel de ouro no qual se encontra ainda engastada uma pedra rectangular verde e opaca. De acordo com os especialistas que a esta região se têm dedicado, a necró­pole de inumação teve a sua fase de utilização entre o século IV d.C. e o século VI a.C. Outras necrópoles de inumação foram também descobertas um pouco por toda a parte da Plataforma de Pianos, sobretudo no qua­drante nordeste, entre o Fetal e o Casal de Pianos, mais exactamente numa série de terrenos localmente conhecidos por «Pombal» (sepultura aparentemente rectangular de lajes irregulares e com espólio osteológico constituído por um só esqueleto), «Parede Bem Feita» (notícia de sepulturas várias ainda não devidamente investigadas). «Covas» (notícias de várias sepulturas compostas por lajes de cobertura. de parede e de fundo) e em «Terreno do Milho Miúdo» (referência a uma urna de chumbo, possi­velmente datada do século III d.C., mas ainda não devidamente estuda­da). Registe-se, todavia, que estas urnas destes terrenos carecem de investigação mais cuidada.
Também vestígios arquítectónicos têm vindo a ser descobertos nesta plataforma. Merecem aqui especial realce os restos de um forno encontra­do ao lado da estrada que une a Tojeira ao Casal de Pianos, alguns metros atrás da respectiva capela. Os especialistas têm ainda algumas dúvidas na sua datação, aventando a possíbilidade de o localizar duran­te a ocupação romana ou mesmo mais tardiamente. O forno é de planta rectangular e as três paredes visíveis não comportam abertura, pelo que falta a boca do dito forno; é visível ainda um conjunto de seis arcos para­lelos de volta perfeita, constituídos por compridas aduelas, arcos esses que penetram nas paredes laterais do monumento. O forno, que está actu­almente reduzido a fornalhas e grelha, tem um comprimento global interi­or de 2.6 m. uma largura interior de 1.9 m e uma altura (das aduelas de cada arco) de 45 cm.
Entre os materiais líticos de construção, entretanto descobertos na zona em estudo, destaca-se um fragmento de fuste de coluna em mármo­re, romano ou tardo-romano, de 80 cm de altura por 33 cm de diâmetro, e que está actualmente no Museu Arqueológico de Odrinhas (n.o LXXVI).
Muitos outros materiais e vestígios avulsos têm vindo a ser detecta­dos, nomeadamente telhas e tijolos de vário tipo, não olvidando inúmeras vasilhas e ânforas (muitas das quais poderão ser observadas no Museu de Odrinhas), «molae» (genericamente, mós de moinho manual rotativo) e moedas (nomeadamente um «direme» árabe de prata).
A abundância de vestígios encontrados (muitos dos quais estão tam­bém no Museu Regional de Sintra e não apenas para a época romana), a sua relativa importância, originalidade e interesse, sugerem uma aten­ção particular a esta região e a possíveis desenvolvimentos futuros. Se bem que não seja fácil a visita in loco aos locais referenciados, sugerimos quer a leitura dos estudos já feitos na área, quer a visita ao Museu Arqueológico de S. Miguel de Odrinhas, coluna vertebral e eixo fulcral da arqueologia concelhia.