odrinhas2.jpgodrinhas1.jpg

Museu de S. Miguel de Odrinhas
O Museu Arqueológico de S. Miguel de Odrinhas, situado na pequena vila do mesmo nome - sensivelmente a meio caminho na estrada Sintra­/Ericeira -, constitui-se como uma etapa essencial deste roteiro referente à ocupação romana. E se outros argumentos não fossem encontrados para defender esta ideia, bastará dizer que este museu é - a par com Idanha-a­-Nova - o que detém o mais importante acervo nacional de epigrafia latina. Mesmo num contexto peninsular, a qualidade e quantidade do seu espólio só é ultrapassado pelas colecções existentes em Mérida e Tarragona.
Já no século XVI, Garcia de Resende e Francisco de Holanda procede­ram à primeira recolha e descrição conhecidas de inscrições lapidares da região onde se veio a instalar, no nosso século, o museu. Em 1949, desen­volveram-se no local as primeiras escavações sistemáticas, desde logo pondo a descoberto um valioso espólio que ao longo dos anos tem vindo a ser aumentado. A inauguração oficial do museu data de 13 de Junho de 1955, contendo nessa altura oitenta e duas peças, número que tem vindo a crescer consideravelmente ao longo dos anos. As peças que actualmente constituem o espólio do museu provêm, na sua maior parte, das imedia­ções, sobretudo Terrugem, Montelavar, S. João das Lampas, Faião, Alvarinhos, etc., sendo de realçar, para a romanidade, o grande número de inscrições lapidares e de túmulos. Não pretendemos, de forma alguma, individualizar alguma(s) das inscrições epigráficas que em Odrinhas podem ser encontradas. A sua quantidade e qualidade permite que seja o próprio visitante, com o auxílio pronto dos funcionários, a derramar a sua atenção sobre as inscrições que desejar. Contudo, e por não caber muito no âmbito deste roteiro reproduzir tais transcrições lapidares, achamos útil remeter para os vários estudos citados na Bibliografia e que longa­mente estudam muitas das peças neste museu depositadas.
A localização do museu - no centro de uma multiplicidade de vestí­gios da época romana - permite, aliás, supor a existência, na área, de uma povoação romana de razoável importância, quiçá uma das mais importantes da região. As mais de oitenta inscrições provenientes do Faião, a análise de algumas vergas de porta encontradas nesse sítio, e o facto de tais vergas apontarem para a existência de uma igreja (século VI) nessa localidade, levam a supor a existência no Faião de um núcleo urbano de certa importância para a romanidade e pós-romanidade, até à ocupação muçulmana. Esta probabilidade merece que sobre ela nos dete­nhamos um pouco. De facto, no início da década de noventa, o arqueólogo Cardim Ribeiro, ao analisar quatro vergas de porta descobertas no Faião datadas da primeira metade do século e depositadas no museu, avançou a hipótese de se estar perante não quatro vergas avulsas de diferentes edifícios - como até então se pensava -, mas de quatro vergas proveni­entes do mesmo edifício. Tratar-se-ia das quatro vergas de cada uma das portas de uma igreja paleo-cristã de planta cruciforme. O templo teria no extremo de um dos braços a porta principal, sobre o qual se situaria a I verga que tem a inscrição - ainda hoje visível: «Esta é a porta do ISenhor.» No braço esquerdo ou direito do templo, situar-se-ia a segunda porta (e segunda verga) consagrada a S. João, e no braço oposto a verga consagrada a S. Miguel (ainda hoje patrono e orago do local) e a S.lo Adriano Mártir. Finalmente, no extremo contrário ao da entrada prin­cipal (no braço da planta onde se situaria o altar), ficaria a última verga de porta consagrada a S.la Maria. Ora, a aparente importância deste templo permite, como se disse, pressupor estar-se perante uma povoação de importância, provavelmente uma «vicus», isto é, uma entidade urbana dotada de características próprias, e que seria, provavelmente, a maior do Município romano lisboeta logo a seguir a Olissipo. Recorde-se que os municípios romanos eram entidades diversas dos actuais municípios, com mais território - o lisboeta ia até Torres Vedras, englobando toda a área oeste da Estremadura - e mais autonomia.
Dois outros dados entretanto analisados permitem supor da impor­tância da «vicus» romana do Faião. Em primeiro lugar, a probabilidade de se identificar essa «vicus» com a povoação romana de Chretina ou Chrestina, referenciada no século II da nossa era por Cláudio Ptolomeu (matemático, astrónomo e geógrafo de Alexandria); em segundo lugar, o facto de se poder associar à povoação de Faião-Chretina o famoso bispo Ildefonso de Toledo (século VII), já que uma lápide com um excerto de uma proclamação sua foi também aí encontrada, estando igualmente deposi­tada no Museu. Outros vestígios da muito provável Chretina estão depo­sitados no Museu Regional de Sintra.
A importância destes achados é reforçada com o facto de se desco­nhecer, para a Europa, quaisquer conjuntos de vergas semelhantes, já que só para o Médio Oriente se conhece algo de parecido. Ora, tal poderá pressupor que a introdução do cristianismo na zona se terá processado através da Asia Menor, resultado das intensas trocas comerciais e cultu­rais que o ocidente peninsular em geral e a região sintrense em parti­cular estabeleciam com tal região.
Assim, o povoado-vicus de Faião-Chretina ter-se-ia afirmado como a principal localidade de toda a zona até à ocupação árabe, tendo-se então o eixo da vida local deslocado para a emergente vila de Sintra, até aí não mais que local de esparsa e pouco significativa ocupação humana.
Ainda para o período da ocupação romana, merecem referência, em Odrinhas, as várias «tesselae» e os mosaicos romanos existentes no local, para além de uma interessante construção absidal do século !lI(?)d.C., até há poucos anos identificada como a ábside de um templo paleo-cristão. No final da década de 1950, trabalhos efectuados no local por Fernando de Almeida permitiram uma descrição do monumento, que foi então des­crito como um edificio de planta redonda, já sem tecto e bastante danifi­cado, construído com pedras da região dispostas horizontalmente em fi­leiras paralelas. No seguimento dessas escavações resultou claro que a planta apresentava algumas peculiaridades. Assim, a essa ábside cir­cular seguir-se-iam dois nichos circulares - um em cada extremidade dos muros - e uma grande nave rectangular. Apesar da prudência de Fernando de Almeida, que não afirma peremptoriamente estar-se perante uma ábside de templo paleo-cristão ou romano, o facto é que se populari­zou essa ideia - já anteriormente aventada, de resto -, e que, em abono da verdade pouco mais tem em seu sustento que a simples suposição. Só há poucos anos é que se começou a ventilar a possibilidade de tal ábside mais não ser que parte de uma «villae» romana existente na região, mas a romanidade - e não apenas, sem dúvida - está de resto bem documentada no museu, onde ainda poderão ser encontrados outros tes­temunhos que, numa primeira análise, se não esperariam encontrar. É o caso dos sarcófagos etruscos trazidos de Monserrate. Se bem que não sejam originários da região sintrense - e difícil seria se o fossem ­foram os três sarcófagos expostos no museu trazidos do parque de Monserrate em 1986, após terem sofrido danos durante as cheias de 1983. Tal acidente - que os responsáveis culturais do concelho há muito temiam e para o qual haviam já, em vão, avisado - fez com que fossem depositados nos Serviços Culturais da Câmara Municipal de Sintra (átrio do Turismo de Sintra), ao mesmo tempo que se procedia ao seu restauro. Os sarcófagos são constituídos por três caixotões rectangulares, tapados por estátuas jacentes representando o defunto, e possuem ainda baixos­-relevos reproduzindo cenas bélicas e mitológicas. Inscrições permitem identificá-los como pertencentes à «gens» Vipinana, família pertencente à classe dos proprietários agrícolas. São feitos na pedra vulcânica fre­quentemente usada na produção dos sarcófagos da necrópole etrusca de Tarquínia (actual Toscânia), e datam de cerca de 300/250 a.C.
Se bem que não seja ainda claro o processo pelo qual teriam chegado a Portugal - mais exactamente a Sintra -, duas hipóteses se perfilam como mais prováveis. Uma tese sustenta que os túmulos teriam sido com­prados por Francis Cook - antigo proprietário de Monserrate - em Roma em meados do século passado; outra crê que teriam sido adquiridos por Cook não em Roma, mas na costa sintrense, na sequência de um naufrá­gio de um navio que levava peças de Itália para o Museu Britânico. Seja como for, com a sua integração no complexo museológico de Odrinhas, estes sarcófagos - cuja raridade é indiscutível - terão terminado o seu centenário percurso. Não obstante provirem de fora do concelho, não qui­semos deixar de referir este espólio único de um mundo etrusco que a romanidade substituiu.
O museu de Odrinhas é, consequentemente, um ponto obrigatório de paragem para qualquer
roteiro romano na região sintrense. O espólio guardado (quer no local quer no Museu Regional de Sintra), a sua organi­zação e a orientação dos técnicos presentes, permitem assegurar uma visita didacticamente útil.