Contributos da Formação


Villa Roma

Trabalho realizado por :

Teresa Ferreira do Amaral

No âmbito da acção de formação: História de Sintra: Espaços e Percursos

Situada no caminho de Pizões, na estrada que liga a vila de Sintra a Colares, vamos encontrar uma casa construída em meados do século XIX. O local escolhido prende-se com a magnífica vista que dele podemos disfrutar e que apaixonou completamente a então prometida do futuro proprietário, os quais após o seu casamento foram viver para a Quinta Velha, propriedade da família, enquanto aguardavam o termo das obras da sua nova casa.
Villa Roma encontra-se situada entre as quintas do Relógio e da Regaleira.
No decorrer deste século XIX muitos eram os elementos da nobreza que se sentiam atraídos por Sintra, não só devido à sua magnífica paisagem, mas também pela presença da família real nesta Vila. Este facto é testemunhado pelas inúmeras residências construídas quer no centro do burgo quer espalhadas por montes e vales com os seus jardins e quintinhas.
Vila Roma foi idealizada e construída por Carlos Morato Roma, tendo-se tornado residência de Verão dos principais membros da família, muitos dos quais ( a começar pelo autor da casa), grandes vultos da política portuguesa.
Nesta casa viveram figuras como:
  • Carlos Morato Roma (conselheiro), que foi director do tesouro público.
  • Dr. José Vicente Barbosa du Bocage, professor, Ministro do Ultramar e dos Estrangeiros e Par do Reino.
  • General Carlos Roma du Bocage, que no fim da sua vida foi Ministro dos Estrangeiros de El-rei D. Manuel II, deputado e Par do Reino.
  • Dr. António Maria Barbosa, médico do Paço e sócio da Academia Real da Ciências.
  • Dr. José Inácio Machado de Faria e Maia, foi Delegado, Juíz de Direito, Secretário da Procuradoria Geral da Coroa e Auditor dos Conselhos de Guerra em Lisboa.
Trata-se de uma casa confortável e prática, de simples planta rectangular e fachada sóbria. No entanto é muito original, graças ao seu reboco exterior vermelho e branco, imitando tijolo, e pelo seu pórtico muito elegante, suportado por quatro colunas dóricas.
O seu estilo eminentemente inglês não nos pode deixar surpreendidos se tivermos em conta que Carlos Morato Roma foi educado em Inglaterra, sendo um brilhante economista, gozando de prestígio político e podemos mesmo dizer que era um visionário, pois preconizou os Estados Unidos da Europa.


O projecto da casa foi encomendado a um célebre pintor e estucador estrangeiro, julga-se que tenha sido Jean Pillement, que se encontrava a reparar as salas do palácio da família Marialva, em Seteais e que esteve, igualmente ligado à construção da Quinta do Relógio que pertencia na altura a Henrique Pinto da Fonseca, alcunhado de Monte Cristo, por ser muito rico, com fortuna construída no Brasil à custa do tráfego negreiro. O projecto arquitectural desta última deve-se a António Manuel da Fonseca Júnior.
No entanto a este repeito permanece a dúvida se terá sido um seu discípulo, o autor do referido projecto ou se este projecto foi elaborado pelo próprio à distância, uma vez que a estada de Pillement em Sintra é anterior em algumas décadas à construção da dita casa .
Foi um discípulo deste estucador e pintor (especialmente a fresco) que foi responsável pela pintura da sala de jantar da Vila Roma, e da ornamentação e estuque do salão de entrada e sala de visitas.


Podemos encontrar ainda numa das salas cercaduras de alguns espelhos com motivos florais, pintadas pelas próprias filhas do dono da casa. As mais interessantes destas pinturas a fresco são sem dúvida as da salinha onde delicadas grinaldas, florões e folhas de acanto se harmonizam com móveis ingleses da mesma época.
A sua decoração é tipícamente romântica reflectindo totalmente a época em que foi construída, na qual tudo tinha tendência a transmitir-nos o carácter dramático e poético do momento e do lugar.
Em 1857 foi concluído o tanque e chafariz do pátio de entrada, então alimentados com água que vinha de uma tapada no tôpo da serra, a qual era pertença do referido Pinto da Fonseca e que alimentava de água as duas propriedades dos Pizões.
Este pátio era muito agradável e nele era frequente passarem-se agradáveis momento de lazer e cavaqueira. Encostado à grade da frente havia um caramachão com uma acácia.
A família Roma conseguiu-se instalar definitivamente na Vila Roma já as três filhas do proprietário eram casadas. Até essa data passavam ali os verões estando a casa ainda em obras de ampliação.
Carlos Morato Roma faleceu em 1862.
Era vulgar as pessoas da vila de Sintra passearem pela estrada de Colares (a única que então existia e que passava mesmo em frente do pátio principal da casa). Consta que várias vezes El-rei D. Fernando entrou no pátio, sentando-se a conversar com Carlos Morato Roma e o Dr. José do Bocage. Isto aconteceu mesmo depois de já estar casado pela 2ª vez.
Mais tarde também D. Luiz acompanhado da rainha e dos príncipes por ali passaram na sua carruagem, vindos do Palácio da Vila.
Também naquele pátio se detiveram em amena cavaqueira Latino Coelho e seu irmão e Alexandre Herculano.

Por interessante coincidência a casa foi passando de geração para geração sempre por via feminina.

Assim foi doada a D. Maria José Roma Machado casada com o Major António Pinto Cardoso Salgado, que era a filha mais nova de D. Paulina Roma casada com Dr. Inácio Machado de Faria e Maia, quarta filha de Carlos Morato Roma, primeiro proprietário da casa.

D. Maria José deixou-a a sua única filha mulher (uma vez que as outras suas duas filhas morreram ainda crianças), D. Maria do Carmo Roma Machado Salgado casada com o Sr. Dr. José Sarmento Matos, pais dos actuais proprietários. ( ver genealogia que se segue).



Estes mantêm a referida vila , com as suas colecções de faianças, porcelanas da companhia das Índias e até o seu serviço de cristal «Roma».

Bibliografia



AAVV – Sintra e as suas quintas, Sintra, 1983.

Carita, Hélder- “ Elementos para uma história de interiores em Portugal” in Revista Casa Viva, nº 66, Fevereiro 1980.

Faria e Maia, Carlos Roma Machado – Memórias da Villa Roma, Lisboa, 1940.

Stoop, Anne de – Quintas e palácios nos arredores de Lisboa, Livraria Civilização Editores, Barcelos, !986.