De entre os vestígios romanos encontrados na região sintrense - e até na região do chamado Município Olisiponense - a «Villae » de S.to André de Almoçageme destaca-se pela importância do seu espólio, pelo seu his­torial e pelas potencialidades que encerra em termos de achados futuros.
A «villae» foi descoberta em 1905, mas só a partir de 1985 tem vindo a ser alvo de campanhas arqueológicas consequentes e acompanhadas por espe­cialistas, de que se destacam Elvio Melim de Sousa e Cardim Ribeiro. Até ao momento em que este roteiro é escrito, estão já explorados mais de 1000 m2, o que mesmo assim representa cerca de metade da previsível área total da «villae». Tal estimativa permite, aos arqueólogos que têm trabalhado nas campanhas, calcular que a «villae» estará totalmente explorada num prazo de cerca de cinco anos. Para salvaguarda dos trabalhos, a Câmara Municipal de Sintra adquiriu já os terrenos onde a «villae» está inserida.
Estamos perante uma «villae» do Baixo Império ou - numa hipótese menos provável ainda que teoricamente possível - uma «villae» mais remota com reaproveitamento posterior. Se bem que não se saiba ao certo quando deixou de ser explorada, pode-se considerar a hipótese - se bem que muito incerta - de que tal possa ter ocorrido em meados do século V .
A «villae», de grandes dimensões, era uma propriedade rural que incluía terras de aptidão agrícola e um conjunto de edifícios relativamente vasto, onde se inseria a residência do proprietário, os balneários, o alojamento de trabalhadores e outras dependências avulsas, como lagares, arma­zéns, celeiros, estábulos ou olaria.
Porém, alguns factos entretanto descobertos permitem avançar a hipótese de que estamos perante uma «villae» com características sui generis, e que não esgotaria as suas potencialidades numa «simples» propriedade de exploração agrícola. Assim, e contrariamente ao que seria de pressupor numa estrutura deste tipo, nota-se que:
  1. 1. A «villae» foi erguida em território sagrado do «Mons Lunae», o que é um facto verdadeiramente fora do comum.
  2. 2. A olaria situa-se no interior da própria «villae», facto muito raro em termos gerais, e único até no território português.
  3. 3. Foram encontrados vestígios de estatuária imperial de feição deificante.
  4. 4. Bastante perto da propriedade, encontraram-se vestígios de um templo de cultos solares e lunares e, muito possivelmente, dedicado a cul­tos imperiais. Segundo alguns estudiosos, este templo estaria associado à «villae», num primeiro momento sob o governo do imperador Septímio Severo (193-211), e mais tarde sob o imperador Aureliano (270-275).
Deste conjunto de factos resulta lícito que se avance com a hipótese de estarmos perante não uma «villae» comum e dentro dos habituais mol­des deste tipo de estrutura, mas mais de um entreposto destinado a aco­lher funcionários desse templo anexo, garantindo simultaneamente a sua subsistência. Tal tese surge consideravelmente reforçada se se puser em causa a ideia do seu abandono em meados da quinta centúria - o que, como se viu, é somente uma hipótese duvidosa. De facto, crê-se que após a queda do Império Romano do Ocidente, continuaram a chegar a S.lo André de Almoçageme ânforas provindas do Mediterrâneo Oriental transportando vinho carismático utilizado no sacramento da Eucaristia. Ora, esta constatação permite - com cautelas, mas com alguma consis­tência - avançar a hipótese de haver uma continuidade de utilização mítico-religiosa.
Entretanto, os vestígios que ao longo das campanhas têm sido des­cobertos atestam, mais uma vez, a importância desta «villae». De entre o espólio descoberto salienta-se:
  • Sepulturas - E de realçar uma sepultura infantil de inumação, constituída por dois ímbrices sobrepostos e em posição invertida um em relação ao outro, de molde a formar uma caixa fechada nos topos por fragmentos de tijolo, e lateralmente acunhada por outros fragmentos de tijolo para que se mantivesse firme. Tem cerca de 65 cm por 20 cm. Esta sepultura encerra um esqueleto de criança de cerca de três meses, inuma­do em posição fetal.
  • Banquetas de tijolos - Três séries de tijolos sobrepostos de modo a formar uma elevação paralelepipédica de 30 cm de altura por 60 cm de comprimento. Pressupõe-se que seria a base onde assentaria uma está­tua.
  • Tanques - Dois tanques, juntamente com muros de planta semi­circular. Pensa-se que seria o centro ajardinado de um peristilo, isto é, uma espécie de claustro com o qual comunicavam diversas secções.
  • Cerâmica - Foram encontrados diversos exemplares anfóricos, na sua maioria de mesa e de transporte de pasta de peixe.
  • Moeda - Inúmeras moedas foram encontradas no local, sendo um terço dos exemplares do século III e dois terços do século IV.
  • Objectos em pedra - O exemplar mais significativo encontrado foi um almofariz em calcário.
  • Objectos de adorno - De entre os vários objectos encontrados, salientam-se contas de vidro, um anel em gema, várias lucernas e alfine­tes em osso.
  • Mosaicos - Foram encontrados cinco mosaicos policromados, sendo o maior conjunto de «tapetes de pedra» descobertos em toda a região de Lisboa. Revelam nítida influência africana e são constituídos por tessatos (pequenos cubos de calcário pintado) que cobrem todo o piso de três salas. A decoração destes mosaicos é constituída principalmente por lágrimas, tranças, flores estilizadas e motivos geométricos. Os mosai­cos são vermelhos e amarelos, tendo sido feitos, segundo crêem os arqueólogos, por artesãos locais.
Se bem que as investigações e campanhas estejam ainda longe de estar concluídas, e poderem escavações posteriores acrescentar novos dados ou traçar pistas diferentes, o que está já a descoberto é suficiente para que se considere esta «villae» como um dos mais interessantes - se não mesmo o mais interessante - vestígios da romanidade em território sintrense. Muito do espólio entretanto descoberto - sobretudo cerâmica­ é visível no Museu Regional de Sintra.