A ocupação romana: O monte sagrado.
A presença romana na região sintrense teve alguma importância, como de resto tivemos oportunidade de verificar quando abordámos alguns povoados neolíticos de posterior reocupação pelos romanos. Por se situar dentro dos chamados "Campos Olisiponensis", a região sintren­se gozava do direito de município romano. Esta região, que os historiado­res denominam de "Zona W" do Município Olisiponense, estendia-se do cabo da Roca (Promontório Sacro), ao lugar de Paço das Ilhas, quatro qui­lómetros a norte da Ericeira, onde a população se dispersava em inúme­ras villae de cariz latifundiário (ver, mais adiante, o exemplo de Almoçageme), usufruindo de uma economia rural e de exploração do sub­solo.
A relativamente larga cópia de vestígios encontrados nesta região acompanham - fácil é supô-lo - as tendências gerais da ocupação. Na "Zona W" do Município Olisiponense, a grande maioria dos achados situa-se numa área em torno da povoação de S. Miguel de Odrinhas, não obstante terem sido encontrados vestígios em mais de quarenta pontos diferentes do concelho.
Quanto à área da serra propriamente dita, onde mais tarde se fixaria a vila de Sintra, essa era tida como "Mons Sacer" (Monte Sagrado), e con­tituiria uma reminiscência de velhos cultos célticos e turdetanos. Os vá­rios escritores latinos que escreveram sobre a região sintrense dão conta desse fascínio pela Serra, tida como santuário de cultos lunares. Plínio, Varrão, Ptolomeu, Estrabão, Marciano de Heracleia e Sílvio Itálico dão de tal culto o seu testemunho, narrando o último - nas "Púnicas" - a lenda de que o vento da serra de Sintra seria tão fértil que emprenhava as éguas, que assim geravam cavalos pequenos e velozes. Registe-se contu­do que a lenda não era original, pois para vários lugares fertéis se encon­tram variações deste tema.
A atestar porém de forma mais exemplar a sacralização da zona de Sintra aquando da ocupação romana - reminiscência provável de anti­gos cultos célticos - temos as notícias que nos últimos anos têm vindo a lume relacionadas com um templo de cultos lunares e solares. De facto, o arqueólogo e historiador Cardim Ribeiro dá como provável a prática anti­ga de cultos astrais - que poderiam prolongar-se até ao século XVI ­realizados na foz do rio de Colares. Aí existiria um templo dedicado ao sol e à lua, cujas inscrições foram descritas por Valentim de Fernandes (tipó­grafo alemão da corte de D. João II e de D. Manuel), por André de Resende (na sua obra «Antiquitatibus Lusitaniae»), por frei Bernardo de Brito (na «Monarchia Lusitana») e por Francisco de Holanda (em «Na fábrica que falece às portas de Lisboa»). Segundo estes autores, o monumento seria composto por várias colunas em círculo, contendo uma inscrição que dizia:



"SOLI. AETERNO/CHRISTO . IESV ./ET./GLORIOSAE . VIR/GINI .
MARIAE .NLISIPPO ./DEDICAVIT ."



Estas descrições do monumento e da sua epigrafia, se bem que algu­mas de carácter duvidoso - sobretudo as de Holanda -, despertaram o óbvio interesse dos investigadores pela sua situação. Contudo, e para além da sua provável localização - junto à costa, no Alto da Vigia - e de esparsos vestígios - dois fustes de mármore fragmentados com 42 cm de diâmetro -, nada mais se descobriu de tal monumento. Campanhas arqueológicas entretanto sugeridas poderão permitir novos desenvolvi­mentos, já que, actualmente, muito pouco há a mostrar a quem estiver interessado na sua observação. Em todo o caso, é de esperar por futuros desenvolvimentos deste possível monumento.