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Ora se Lisboa tem a presunção de ser a maior e mais nobre cidade do mundo C .. )' como não tem água para beber a gente (da cidade)? Também Vossa Alteza deve de trazer a Lisboa AGUA LIVRE, que de duas léguas dela trouxeram os romanos a ela por condutas debaixo da terra subterrâneas, furando muitos montes e com muito gasto e trabalho (...).»
Assim escrevia Francisco de Rolanda a D. Sebastião em 1571 (na obra «Da fábrica que falece à cidade de Lisboa»), comentando os problemas de abastecimento de água à capital. A referência à Agua Livre trazida pelos antigos romanos alerta-nos para o facto de ter existido uma conduta que traria a água dos arrabaldes. Ora, de acordo com aquilo que atualmente sabemos dos dados quer da arqueologia quer da documentação, a barra­gem romana inicial formar-se-ia na zona de Belas, carreando a água até à porta de S.lo André, na Costa do Castelo. Desconhece-se o destino dessa barragem romana que abastecia Olissipo. Sabe-se apenas que no sé­culo XVI (como se vê em Rolanda), mais não era que uma longínqua recor­dação, nada mais restando dela que escassos troços - quer da albufeira inicial quer do aqueduto que carreava as águas.
Hoje, dos vestígios monumentais ainda visíveis, dois têm sido objecto de algum estudo: a barragem de Belas e o aqueduto que, dela saindo, passava pela Amadora. É a primeira que irá merecer a nossa atenção.
Vestígios da barragem romana de Belas são ainda localizáveis na Estrada Caneças-Belas, perto da Quinta da Água Livre (quilómetro 16.423 da E. N. n.o 250). Visível é uma arruinada muralha separada da estrada por um pequeno ribeiro, sendo tal muralha o que resta da barragem aí edificada no século III e que servia, como vimos, para a formação da albufeira de onde um aqueduto (de que é possível observar parte do troço na Amadora, junto ao Bairro da Mina) levava a água para Lisboa. A sobrevivente muralha da albufeira em Belas, tem o comprimento máximo de 15,5 m, por 8 m de altura máxima e 7 m de espessura máxima. As pedras que a constituíam - e constituem ainda - eram irregulares e de tamanho variável,ligadas por argamassa feita com cal. Areia fina e pedaços de cerâmica comum. Os paramentos da muralha estão revesti­dos com pedra obtida no local. A albufeira assim formada podia armaze­nar até 125000 metros cúbicos de água provenientes dos abundantes cau­dais locais, de onde se destacava uma nascente que (de acordo com cál­culos elaborados por engenheiros seiscentistas) brotava cerca de 360 litros por minuto. A albufeira ficava a cerca de 10 km de Lisboa em linha recta.
Desconhece-se quando deixou a albufeira de ter serventia. Como se observou, no século XVI mais não era que uma referência longínqua. Intenções de D. Sebastião e de Filipe II (com a visita deste às ruínas) para a reconstrução do aqueduto em nada resultaram, já que só em 1728 se ini­ciaram as obras tendentes à erecção de um aqueduto. A barragem foi então tida por desnecessária, dada a abundância de pequenas nascentes que foi possível captar pelo caminho. Desta altura são as construções que também podem ser vistas actualmente na barragem de Belas, nomeada­mente os ventiladores e os «castella».